segunda-feira, 16 de junho de 2008

De avião mesmo...

O olhar é forte e intenso. Daqueles que te chegam até a alma, ou seja, não permite disfarces. E revelam que, por trás daquele corpo frágil e aparentemente velho, ainda está o aventureiro que um dia saiu de moto a viajar pela América Latina sem muito planejamento e dinheiro. A cadeira a seu lado é disputadíssima, nunca fica vazia e sempre tem alguém vigiando para saber se vai ficar vaga. Num certo momento, um fotógrafo se levanta. Pronto, minha chance, ainda que seja por pouco tempo, como foi.

Pergunto: Como te sentes vendo todas essas homenagens ao Che aqui em Rosário?

Ele - Feliz, feliz e emocionado, ele merece.

Eu - O que o senhor achou da inauguração da estátua ontem da estátua de Che? O espírito dele ainda vive?

Ele - Eu gostei muito, e fico feliz porque vejo muita gente e especialmente muitos jovens envolvidos e isso é muito bom, demonstra que o espírito do Che ainda está por ai. Sorri o aventureiro.

Eu - Quantos anos o senhor tem?

Ele - Eu tenho 85.

Eu - E queres viver até ver o sonho do Che se concretizar?

Ele - iiiii, eu ainda vou longe... até os 110, 120...


E Alberto Granada sorri novamente e o som do show atrapalha repórter para ouvir o fim da frase. Chegam os representantes da delegação cubana para levá-lo. Estávamos atrás do palco no qual várias bandas fizeram um espetáculo de encerramento da programação deste final de semana, na beira do rio Paraná ao lado do monumento da bandeira.

Ele segura na minha mão para se levantar e me entrega um copo de plástico com o final do chá verde que tomava para tentar se esquentar, como todos ali.

O frio era intenso demais, melhor mesmo proteger o amigo do homenageado que veio de Havana até a Argentina só para o evento. Mas dessa vez foi de avião mesmo, o espírito ainda é jovem, mas o corpo não agüentaria outra viagem como aquela que iniciou tudo isso.

domingo, 15 de junho de 2008

Um dia tenso


Faltam produtos nas prateleiras dos supermercados.


A estátua de Che é descoberta.

Rosário- Argentina - 23h45min - 14.06.2008 - Hoje é oficialmente o aniversário de Che Guevara. E realmente algo passa em Rosário e na Argentina no que se considerou como o dia mais tenso desde que começou a paralizaçao.

Todos as estradas de saída da cidade de Rosário estão fechadas desde ontem. Aqui dentro os postos já não tem mais gasolina. O frentista afirma que deve chegar um caminhão com combustível durante a noite. Mas nada é certeza nesse país, ainda mais agora. Durante a tarde 19 líderes ruralistas foram presos na Ruta 14 - umas das principais do país - com isso o setor decidiu convocar "el paro" de novo. Este deve durar da meia noite de hoje até quarta-feira.

Nos supermercados da cidade dificilmente se encontra carne e farinha. Quando há, os preços sao absurdamente caros. "Nunca vi uma crise como essa. Faltam várias coisas como ovos, farinha, frango e carne", diz Omar Perotti, dono de um pequeno mercado no bairro de Tiro Suizo. "Falta governo nesse país", reclama. Os clientes já estao acostumados com a situaçao, "eles já sabem que quando falta algo nao é por culpa nossa", conta o comerciante. Em um supermercado maior do mesmo bairro o açougue estava completamente vazio. Um quilo de frango custa de cerca de 15 pesos e um pacote com chorizo, o salsichao argentino, custava 10 pesos.

Durante a tarde a filha de Che Guevara, Aleida Guevara, discursava em Rosário e criticava a atitude dos produtores que jogaram fora cerca de 4 milhoes de litros de leite porque nao tinham como distribuir e comercializar o produto. Perguntava o que seu pai acharia de tudo isso, e o que pensaria que e deveriam fazer os argentinos numa situaçao como essa.

Cerca de cinquenta mil pessoas acompanharam a inauguraçao da estátua de Che no Parque Independência. O frio era intenso e mesmo assim a multidao aguentou até a noite, quando algumas pessoas ainda posavam em frente a estátua de Che para tirar fotos. O que pensaria ou faria Che se visse tudo isso, buena pregunta.

sábado, 14 de junho de 2008

Qué pensaria el Che hoy?



La mirada del amigo. Foto: Gabi Di Bella

Quando se trata de Che Guevara é realmente difícil fugir do lugar comum. E assim foi ontem à noite em meio ao ato oficial de abertura dos eventos que comemoram em Rosário os 80 anos do personagem mais conhecido da cidade. Falaram escritores, autoridades e o embaixador de Cuba na Argentina., Aramis Fuente Hernández.

Todos, obviamente lembraram a figura de Ernesto e toda a sua história, suas idas e vindas pela América Latina e a Revoluçao Cubana. Além disso, a pompa e circunstância do evento em um belo teatro aqui de Rosário, acredito eu, contrasta bastante com o pensamento do próprio Che.

E talvez por isso mesmo a fala mais interesante e menos destacada nos jornais locais hoje (porque foi feita muito tarde) foi a do Premio Nobel Miguél Pérez Esquiével . “O que pensaría o Che hoje?” , disse ele ao abrir seu discurso. É uma boa pergunta. “Porque sempre que se juntos dois argentinos se formam três partidos políticos?”, falou o premio Nobel. “O governo sofre um autismo político e agora esses senhores de terra que se tornaram piqueteros”, reclamou.

Enquanto isso, do lado de fora do teatro, um casal e seus dois filhos tentavam vender fotos do Che para ganhar algum dinheiro. Já vendeste algum, perguntei… No, hasta ahora nada… Fazia frio e eram onze e meia da noite. Um cenário que demonstra a confusao ideológica que permea as relaçoes na Argentina e talvez nunca consigamos traduzir bem.

Mais fotos em: www.flickr.com/photos/dibella

Bien Venida



Foto: Gabi Di Bella


Ayer por la manñana el cartel decia bien venida a Rosário.

Um primeiro e breve relato


FOTO: Gabi Di Bella

A aparente normalidade de Rosário, na Argentina, contrasta totalmente com as notícias na televisao e nos jornais. A verdade é que os argentinos de alguma maneira já adotaram a crise para si, e tentam viver em meio a protestos de alguns e resignaçao de outros. No centro da cidade muitos gastavam a gasolina que tem em grandes congestionamentos na hora do rush do meio dia, enquanto outros faziam uma fila que dava a volta na quadra para tentar garantir algum combustìvel até... até... quem sabe quando essa situaçao vai se resolver.

De incomum mesmo, momentaneamente, foi a passeata do Movimento de los Barrios de Pié que atravessou o centro abrindo, nao-oficialmente, as atividades pelas comemoraçoes dos 80 anos de nascimento Che Guevara que acontecem este final de semana. Além disso, na segunda-feira é feriado pelo dia dos pais aqui, o que traz mais gente para à cidade.

Segundo estimativas dos postos de combustível, há duas horas e meia terminou o estoque de gasolina em Rosário. Ao ir ao banco em busca de cambio o caixa atendia o telefone, nao sei quem o chamava, mas ele respondia que nao, nao tinha gasolina para o final de semana e naquele momento nao tinha como ir abastecer.

O bloqueio dos ruralistas nas estradas, considerado por alguns o mais violento da história do país, está perto de completar cem dias. Com todas as rutas bloqueadas produtores de leite estao jogando fora cerca de 4 milhoes de litros do produto fora, por dia. Hás duas semanas atrás um quilo de tomate podia custar 18 pesos e uma garrafa de azeite 10 pesos e o mais chocante na terra da carne um quilo do produto chegou a custar 23 pesos, relatou o taxista que trouxe do aeroporto até a casa de parentes. Só comemos verduras diz ele.

Os agricultores seguem bloqueando as estradas enquanto o jornal Página 12 traz em matéria de capa que as exportaçoes agrárias foram muito maiores do que no mesmo período do ano passado. Enquanto isso, o mercado interno está em colapso, Cristina Kirchner e os setores ruralistas seguem em conflito e o problema piora. Algo pasa, pero no se sabe exactamente qué... fica no meio a populaçao apreensiva pelo iminente desabastecimento. Para completar o roqueiro Charlie Garcia foi parar no hospital novamente, até a cultura entrou em crise.

Um breve relato por enquanto... algumas fotos, feitas com uma camera amadora em : www.flickr.com/photos/dibella